“Respirar o amor, aspirando liberdade”

Confesso que esta semana me deixou um pouco mais descrente na humanidade. Vou explicar: gosto de me iludir e viver em um mundinho à parte às vezes, no qual esqueço que algumas pessoas ainda se orgulham de expressar opiniões dominadas por um preconceito que elas próprias não assumem ter. Mas, esta semana, fui lembrada, na marra, da realidade. E lembrada que todo mundo deve, sim, ter direito à livre expressão, mas que também está sujeito a julgamentos com isso. Portanto, o que comentarei nesse post não tem nada de muito novo, trata-se mais de uma reflexão minha, em um momento no qual eu acordo pro que está ao meu redor.

Tudo começou com a repercussão da nova lei que trata dos direitos trabalhistas de empregadas domésticas. Normal a classe média se sentir prejudicada. Os gastos aumentarão muito e a estrutura doméstica sofrerá uma modificação significativa.

Capa da revista Veja com a repercussão da nova lei para a classe média

Capa da revista Veja com a repercussão da nova lei para a classe média

O assunto é complexo no que tange à aplicação das novas regras, mas, a meu ver, é naturalíssimo que os direitos desses profissionais sejam os mesmos de outros trabalhadores. Por isso só consigo enxergar como um resquício do pensamento escravocrata algumas manifestações que achei na internet, que em nada refletem preocupação com o que muda na renda da família, mas sim com a equiparação dessa classe com as demais.

Mas essas (poucas) intervenções que tive o desprazer de ver não se equipararam à enxurrada de comentários preconceituosos com os quais me deparei frente à maior notícia de todos os tempos da última semana das redes sociais: a homossexualidade de Daniela Mercury.

Reprodução da página do Instagram de Daniela Mercury

Reprodução da perfil de Daniela Mercury no Instagram

Na verdade, pelo menos pra quem acompanha mesmo que de longe a cantora, sua homossexualidade não foi exatamente uma novidade. A pauta principal foi ela ter se assumido publicamente, por meio de uma montagem romântica no Instagram.

Sua coragem (sim, porque AINDA em 2013 é preciso coragem para isso) de declarar que estava feliz, amando e dane-se quem não concordasse, foi recebida com aplausos por muita gente, mas também vista por uma parcela maior do que eu gostaria como uma “afronta à família” e recebida com chiliques do tipo “ai, meu Deus, crianças verão isso!”.

Procuro refletir se pelo fato de ter muitos amigos gays eu acabo meio que impondo que todo mundo tenha que receber uma informação dessas com a naturalidade que eu recebi. Mas só consigo concluir que sim. É só uma foto romântica, é só babado de artista, uma fofoca que eu acharia tranquila de ver divulgada em sites e revistas que cobrem relacionamentos de famosos, mas que, a princípio, achei meio exagero virar pauta do Jornal Nacional.

Quem conhece a linha editorial do programa, sabe que não é assunto para ele. Mas considerando o momento político que vivemos e a citação que o Bonner fez às críticas de Daniela ao deputado Marcos Feliciano, o pastor das declarações preconceituosas que comanda a Comissão de Direitos Humanos da Câmara, a inserção ganhou algum sentido. Como jornalista, tenho total noção da relevância dessa pauta e do interesse do público por ela, ainda mais considerando que a namorada de Daniela, a jornalista Malu Verçosa, também tem visibilidade.

Ainda assim, acho que o link com o peso político ou com a repercussão que o assunto já tinha tomado deveria ter mais peso na nota do que o namoro em si - notícia que se encaixaria melhor em outros meios de comunicação, até mesmo da própria emissora. Mas posso não ter visto o gancho na hora por conta dessa revolta que já havia se apossado do meu ser. Muita gente já veio me falar que achou positiva a abordagem do assunto no jornal e isso me aliviou um pouco.

Mas a foto continuou rendendo. A Época online solta, desde quarta-feira, pelo menos umas duas notas por dia a repercutindo. Para cada postagem da revista no Facebook divulgando uma delas, mais comentários como “eu não esfrego minha heterossexualidade na cara de ninguém” surgem (encontrei esse, por exemplo, nesse post).

Amigo, nós esfregamos, sim, nossa heterossexualidade na cara do mundo. Não necessariamente por preconceito com quem não é hetero, mas porque é natural. Nós postamos fotos, nós andamos de mãos dadas nas ruas, nos beijamos em público. Quando estamos felizes, nós esfregamos nosso amor na cara de todos de algum jeito. E foi isso que ela fez. É natural. Não é pauta pra Jornal Nacional. E espero que seja essa a impressão que as crianças, sujeito da preocupação dos manifestantes homofóbicos, tenham.

Porém, enquanto eu perdia a esperança no avanço da nossa sociedade, Alexandre Nero surgiu nas redes. Pois é, veio do marido da “Donelô” minha luz no fim do meu túnel de pouca fé na humanidade. Rebatendo um comentário em seu Instagram, ele falou tudo que eu já pensei em falar para uma pessoa que me diz ter um amigo gay, mas que não concorda que o amor dele constitui uma família. Entre outras lições, ele soltou a iluminada frase: “Eu tenho amigos gays, e luto pelo que ELES amam, e não o que EU amo”.

Montagem divulgada no Facebook com o comentário de Nero na íntegra

Montagem divulgada no Facebook com o comentário de Nero na íntegra

Após outra notícia lamentável, a de que Feliciano conseguiu restringir o público manifestante nas sessões da Câmara, eu, como já disse, poderia assinar embaixo do texto de Nero para fechar essa semana cheia. Que venham mais iluminados para manter minha crença nos seres humanos.

Reprodução do perfil de Alexandre Nero no Instagram

Post de Alexandre Nero no Instagram que rendeu a discussão

Catamos – Audrey “ressuscita” em comercial

O vídeo foi divulgado esta semana e bombou ontem nas redes sociais. Audrey Hepburn interpretando uma moça a bordo de um ônibus que se envolve em um acidente. O cenário é a clássica Roma, a exemplo do filme que a lançou para a fama, A princesa e o plebeu, o eterno Roman holiday. Nesse instante, um cara com pinta de galã para seu conversível ao lado e oferece carona para a moçoila, que aceita prontamente, com todos os trejeitos característicos da atriz. A trilha é Moon river, tema do longa mais marcante protagonizado por Audrey: Bonequinha de luxo.

Nada disso seria notícia se não fosse pelo fato de o vídeo ser um comercial de chocolate lançado agora, 20 anos após a morte da atriz. Isso foi possível graças a uma tecnologia chamada de CGI (Computer Graphic Imagery), recurso que permite a criação de imagens por meio de computação gráfica. Segundo o tabloide britânico Daily Mail, o trabalho levou mais de um ano para ser finalizado.

Minha primeira impressão foi positiva. Como fã de Audrey, viciada em seus filmes, vê-la na perfeição de sua juventude em algo novo é demais. Além do mais, o comercial é bonito e extremante realista. Mas também comecei a pensar no outro lado da história: o uso de sua imagem para fim publicitário.

O fato é que os filhos da atriz, Luca Dotti e Sean Ferrer, autorizaram o uso da imagem da mãe, alegando que ela se orgulharia do novo papel porque gostava do chocolate, mencionando muitas vezes “o quanto ele levantava seu espírito”. Assim divulgou o portal CBS news. Grandes chances de tratar-se de um exagero, mas ok, são os filhos dela.

O comercial, porém, só reflete a tendência ao uso de imagens de pessoas mortas por meio de computação gráfica. Uma “ressuscitação” tal como previra a ficção científica e da qual já falamos aqui mesmo no blog, comentando a aparição de Tupac Shakur no Festival Coachella e a turnê Elvis Presley in concert.

Audrey Hepburn em comercial do chocolate Galaxy

A preocupação que não pode ser deixada de lado é o que se pode fazer com essas imagens. É bom rever seu ídolo, mas o respeito, inclusive por parte dos familiares que detém os direitos, deve ser mantido. Esta sim, é a discussão em questão.

O fenômeno popular brasileiro ganha novos ares

Famosos “congelados” no estilo Avenida Brasil. Até a presidente Dilma entrou na brincadeira, em uma montagem de um perfil fake do Twitter

Você pode não ter o hábito de acompanhar novelas ou nem gostar de televisão, mas com certeza sabe quem é Nina/Rita, Carminha e Tufão, certo? Muito pouco provável que não. Em tempos de redes sociais, o fenômeno popular da telenovela, a paixão nacional que pauta bate-papos do dia a dia desde o tempo de nossas avós, ganhou novos ares e uma diferente forma de repercussão: a internet.

Prova disso é que, mesmo com todo o sucesso de crítica e público da bem construída Avenida Brasil, a audiência da novela tem média geral, até esse estágio da história, de 37,7 pontos no Ibope, enquanto sua antecessora, Fina Estampa, de Aguinaldo Silva, que de longe não alcançava a mesma repercussão da atual e, na minha opinião, tinha uma trama extremamente pobre, batia média de 38,9 a esta mesma altura.

Como isso é possível, se a história de João Emanuel Carneiro está parando o país como há muito tempo outra não fazia?

A resposta está na rede, claro! Quem acessou o Twitter nesta semana na hora da novela encontrou, desde o aguardado capítulo 100 (que marcaria a reviravolta na trama) a hashtag #Oioioi + o número do capítulo nos Trending Topics mundiais.

Outra expressão que virou “meme” tanto no Twitter quanto no Facebook, onde várias montagens estão sendo feitas, é “A culpa é da Rita”, uma referência à obsessão de Carminha, personagem de Adriana Esteves (cuja impecável atuação domina igualmente os assuntos da rede) pela possível vingança até então desconhecida de sua enteada Rita.

Isso se estende ao aplicativo “Conselhos de Carminha” e a série de fotos de perfis de usuários, anônimos e famosos, “congeladas”, como acontece com algum personagem sempre ao final de cada capítulo. Uniu-se o sucesso da trama à disseminação das redes sociais e o resultado foi esse fenômeno. E não há número de Ibope que possa negar isso.

Montagens compartilhadas no Facebook com o meme “A culpa é da Rita”

E a novela merece a fama: é excelente, de um nível que há muito tempo eu não vejo igual – nem mesmo em A Favorita, última trama do mesmo autor, que também se destacou por quebrar padrões.

Como assídua e apaixonada telespectadora desse tipo de dramaturgia desde que me entendo por gente, fico muito feliz por chegar em casa cansada do trabalho e poder assistir a um produto de qualidade, com uma história bem elaborada e uma fotografia digna de cinema.

Posso até estar supervalorizando isso, mas estava tão (mal) acostumada aos últimos folhetins – inclusive de autores mais experientes e consagrados na televisão, que deram uma caída considerável nos últimos anos – que coloquei, realmente, o trabalho de Carneiro em outro patamar, assim como fiz com o de Lícia Manzo e Marcos Bernstein em A Vida da Gente.

Avenida Brasil é feita para ser popular – a começar pela trilha sonora, pelo retrato do subúrbio (criticado por alguns, mas não entremos nessa discussão) e pela presença do futebol – mas não cai no ridículo como sua antecessora fez para alcançar isso.

Entre os personagens, uma mocinha que revoluciona por ser tão contraditória, e, por vezes, a vilã do próprio mocinho; uma antagonista com humor, carisma e um caráter terrível; a piriguete, tipo popularíssimo, representada em uma personagem muito bem construída, com uma história complexa de vida; e um jogador possivelmente homossexual sem caricatura alguma, real.

Destes, a protagonista Nina é quem ganha meu destaque. Não é nova a história do mocinho que volta para se vingar e se descobre apaixonado por alguém da família de seu algoz. Mas não me lembro de ter visto, em novelas, ela ser apresentada de forma tão profunda.

Nina é obcecada por Carminha e isso ultrapassa qualquer coisa para ela, inclusive seu amor por Jorginho e sua felicidade. Sua vontade de ser, para ela, o que Carminha representou em sua vida (medo, maldade), está, após essa reviravolta da trama, a colocando em uma contradição de caráter na qual poucos mocinhos estiveram. E, dependendo de suas ações, poderá tirar esse título dela.

É a mocinha, mas dá medo

O público de novelas ainda precisa de uma certa dose de tradição e, se Nina for muito má ou tiver casos amorosos só para prejudicar Carminha, não se aceitará seu final feliz com Jorginho. E eu acho isso sensacional.

Claro que a novela não é perfeita. Ela se arrastou em alguns momentos, na espera da reviravolta programada para o capítulo 100 (que se concretizou, na verdade, entre o 102 e 104). Poderia ter sido antes, mas o que vimos desde semana passada está entrando para a história da televisão brasileira.

A agonia da cena em que Carminha enterra Nina viva, que nos remeteu a um estilo meio Tarantino em Kill Bill, já a tornou icônica. Sua fotografia e direção foram excepcionais, nos fazendo sentir que a protagonista estava em um inferno, representado pela vilã.

O que quero dizer é que toda essa movimentação da rede em torno de uma telenovela, inédita em sua proporção, se dá pela união que João Emanuel Carneiro fez entre o popular e o rebuscado, entre a dimensão técnica e a dimensão social. E ela é a demonstração dessa nova forma de se medir o que é marcante para a sociedade. Fica difícil qualquer questionamento em torno de sua validade como produto cultural.

Quer saber? Pode também não ser nada disso. Todo esse burburinho deve ser culpa da Rita.